Naquele dia nada
estava prestes a mudar. Na realidade, mudança nunca foi o grande foco da vida
de Francis. Ele já tinha se acostumado com a mesmice daquela cidade que há
poucos meses o havia acolhido. Sua casa era pequena, fachada branca, havia um
frontão de inspiração colonial com um azulejo da imagem de nossa senhora, muito
comum naquela região do subúrbio. Francis odiava aquele piso de azulejo cor de
barro que para ele transmitia sujeira, e outras provocava-lhe feridas pelas
rachaduras feitas pelo tempo que possuíam. Nunca mencionou, mas achava que
aquela casa era mais velha que sua vó Joana. Francis nunca se importava demais
com um determinado assunto, no fim de alguma discussão ele sempre soltava a
palavra "banalidade" com um gesto de que não se importava no fim das
contas. Era seu bordão. No momento, estava pensando se poderia existir homens
da espessura de uma agulha, e se eles estariam vivendo ali em algum canto.
Provavelmente não, pois seriam devorados pelos insetos. Porém, eles poderiam
ser inteligentes a ponto de domá-los e usarem isso a seu favor. Quando terminou
de passar o café, já havia esquecido dessa ideia. Sempre fora assim desde
criança. Fazia mini roteiros de inúmeras possibilidades. Na infância, foi
colocado na catequese por insistência de sua avó, sua mãe concordara embora não
fosse religiosa, mas era uma forma de ter algumas horas livre dos meninos.
Durante os ensinamentos, Francis preferia fazer rabiscos em sua carteira de
animais e lhe dar nomes humanos. Sua madrinha dizia que ele não tinha jeito.
Era um herege. Havia 10 anos. Ele nunca foi apegado à religião, embora falasse
que acreditava em deus. Aos 19 anos, conheceu uma menina cujo
o pai era evangélico e faziam questão que ele frequentasse a igreja deles, como
assim diziam. Foi aí que ele percebeu que nunca fora escolhido, tampouco era
especial como os cristãos se autodenominavam. Por que cargas d'aguas deus iriam
me escolher se eu nem gosto de trajar ternos? Havia muitas questões e poucas
respostas, mas logo eram esquecidas. Às vezes ele achava que havia um louco
habitando sua mente que o fazia esquecer. Esse louco não era daqui, pensava
ele. Nenhum humano tinha a capacidade de invadir a mente de outro, se não
estaríamos extintos. É melhor assistir um pouco de TV, antes de sair para sua
inglória rotina, pensou. Rotina que até então não lhe causava incomodo, até certo
dia.
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